Por Sabrina Forte, médica ginecologista e obstetra
Quando se aproxima o mês de outubro, a campanha do Outubro Rosa evoca um alerta essencial: que a mulher, com suas múltiplas funções e cada vez mais acelerada, volte o olhar para si mesma e para seu corpo. Mas, ao olharmos os dados no Ceará e em especial em Fortaleza, vemos que esse olhar ainda é mais urgente do que se imagina. No estado, o rastreamento por mamografia alcança apenas cerca de 12,5 % da população-alvo, segundo reportagem local. Em Fortaleza, a fila de espera por exame de mamografia atinge cerca de 42 mil mulheres, o município anunciou a meta de zerar essa lista em até um ano, mediante a instalação de novos mamógrafos e ampliação da oferta.
Esses números exigem reflexão: não apenas sobre o câncer de mama, mas também sobre o tipo de vida que as mulheres têm levado, e sobre quem cuida da mulher que cuida de tudo.
A incidência e o diagnóstico tardio já preocupam. No Ceará, entre 2015 e 2023, cerca de 55,3 % dos casos de câncer de mama foram diagnosticados em estágios avançados, o que reduz muito a chance de cura. Enquanto isso, no primeiro semestre de 2025 o número de mamografias realizou um incremento de 13 % no estado em relação ao mesmo período anterior, o que mostra que alguma mobilização está em curso, mas ainda distante do ideal.
Em Fortaleza, a rede pública passa a disponibilizar 13 mamógrafos e pretende dobrar a realização mensal para cerca de seis mil exames, a fim de recuperar o atraso. Ou seja: enquanto o risco está presente, o acesso tardio ao exame e ao tratamento persiste.
Vivemos numa era em que a mulher acumula papéis, é profissional, mãe, filha, cuidadora, quase sempre em ritmo intenso e muitas vezes sem pausa. A sobrecarga emocional, o sedentarismo, o excesso de responsabilidades e a pouca prioridade ao autocuidado compõem um cenário perigoso, em que se negligenciam sinais e se adiam exames. Dados de uma pesquisa recente no Ceará mostraram que 8 em cada 10 homens e mulheres desconhecem os principais riscos associados ao câncer de mama, incluindo consumo de álcool, excesso de peso e amamentação, o que revela que a informação ainda não alcançou de fato toda a população feminina.
Isso convida a uma reflexão profunda: se cuidamos de tantos ao redor, quem cuida de nós?
A mulher moderna muitas vezes assume a crença de que “dá conta de tudo”, menos de si mesma. Marca consultas para os filhos, para os pais, para o parceiro, mas posterga o próprio check-up. É preciso inverter esse paradigma. Cuidar de si não é egoísmo, é sobrevivência. Quando a mulher adia o exame de mama, o que está em jogo é a própria vida. A prevenção não é apenas um ato médico, é um gesto de amor-próprio e de responsabilidade com quem nos quer bem.
Mas é impossível falar de prevenção sem falar de acesso. Em Fortaleza e no Ceará essa realidade se torna evidente: a fila de espera, a capacidade de rastreamento reduzida, a necessidade de deslocamento para exames constituem barreiras reais que precisam ser enfrentadas. A luta contra o câncer de mama precisa ser também uma luta por equidade, por políticas públicas que garantam que toda mulher, independentemente de onde vive ou de quantas responsabilidades carrega, possa cuidar de si com dignidade.
O Outubro Rosa não deve ser apenas uma campanha de conscientização, mas um movimento de transformação. É o momento de parar e refletir sobre o que realmente significa cuidar da saúde feminina em meio à vida moderna. Vejo todos os dias mulheres fortes, corajosas, que carregam o mundo nos ombros, mas que se esquecem de olhar para dentro. Insisto: a prevenção salva vidas. Cuidar de si é um ato político, um ato de resistência e acima de tudo um ato de amor.
Que o Outubro Rosa não se resuma ao laço cor-de-rosa no peito, mas inspire atitudes reais. Que cada mulher encontre tempo para si, que olhe com atenção para o próprio corpo, que faça seu exame e procure acompanhamento regular. A vida é o bem mais precioso que temos, e cuidar dela deve ser sempre a nossa maior prioridade.
