Em um episódio, no mínimo, estranho dentro da base aliada do governador Elmano de Freitas (PT), cerca de 700 agricultores ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam, nesta semana, a sede da Secretaria de Desenvolvimento Agrário do Ceará (SDA), em Fortaleza. O protesto faz parte do 'Abril Vermelho', nome dado à Jornada Nacional de Luta pela Reforma Agrária, promovida anualmente pelo movimento em todo o país.
Com o lema “Ocupar para o Brasil alimentar”, o MST reivindica melhorias na infraestrutura dos assentamentos no Ceará, como construção de escolas, poços, estradas e projetos voltados à juventude e às mulheres do campo. O grupo também exige reuniões imediatas com o governador e secretários estaduais de áreas estratégicas.
A ocupação, no entanto, revela uma evidente contradição política: mesmo sendo historicamente ligado ao Partido dos Trabalhadores e contando com um deputado estadual da base — Missias do MST (PT) — à frente da mobilização, o movimento optou por pressionar o próprio governo que ajudou a eleger. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Sindicato Mova-se também participaram do ato, aproveitando a ocasião para reivindicar reajustes salariais para servidores públicos estaduais.
A movimentação coloca o governo estadual em uma posição delicada: ao mesmo tempo em que prega diálogo com os movimentos sociais, se vê pressionado por eles dentro da própria casa. A ocupação da SDA, por um movimento aliado, escancara os desafios da gestão em conciliar discurso progressista com resultados concretos — especialmente em um cenário de cobrança pública promovida por quem, teoricamente, deveria estar do mesmo lado.
